Quase todo santo vive a experiência do êxtase, a exaltação mística, uma espécie de pas-de-deux com o absoluto. Aliás, a idéia do êxtase é anterior ao próprio conceito de santidade: os gregos já davam esse nome ao estado daquele que se transporta para fora de si, criando assim um vazio a ser ocupado por Apolo e pelas Musas, se você é um poeta, ou por Dionisos, se você é um ator ou um pé de cana.
Não é preciso ser santo para experimentar pelo menos em parte a sensação do êxtase. Todos tivemos momentos semelhantes, alcançados sob a influência do vinho, ou durante os instantes de grande alegria. Ou no encantamento provocado pelo amor. Como se pode conferir neste poema, que se chama Iluminação e que diz:
Depois de outro verão em teus países
/baixos
Onde bailei funâmbulo e feliz
enquanto as almas conversavam lá no alto
no cordame de Notre Dâme de L'Espoir,
a nau dos insensatos corações,
me vi no céu sob um dossel de estrelas
num carrossel de colombinas querubinas
e outros desses seres lá do Empíreo
e pensei: de duas, uma:
ou os deuses te puseram por engano
à mercê de minhas maquinações
ou sou um místico ainda irrevelado,
um novo São João da Cruz,
e você é o meu Êxtase,
o resto são as drogas da estação.
Texto escrito para o programa Comentário Geral, da TVE,
exibido às quintas e sábados.
Iluminação in Lira dos Cinqüent'anos,
Relume-Dumará, 2000 (27.07.07)
para os estóicos o tempo não era
a mera caravana dos sucessos,
essa aventura quase sempre sem sentido
no rumo da anti-Canaã,
a terra onde não há qualquer Moisés
extravagando no Deserto dos Sinais
existe assim um outro tempo, imóvel,
no qual paira a palavra impronunciada,
o mito, sendo tudo e nada,
e idéias como flores ainda à espera
de outra Era ou só da primavera
e da decifração posterior
em suma, se os estóicos não criaram
um sistema solar irresistível
capaz de orientar a órbita dos astros
e as caravelas do conquistador,
em troca talvez tenham inventado
a melhor metáfora do amor
in Lira dos Cinqüent'anos, Relume-Dumará, 2000
(20.07.07)
A convite da Fundação Rio das Ostras de Cultura, Geraldo Carneiro fará
palestra-recital dia 14, sábado, às 15:00, no Encontro Latino-americano
de Poetas. Após o evento, GC autografará seu livro mais recente, Balada
do Impostor.
(13.07.07)
Aproveitando o encontro latino-americano de poesia, aqui vai um poema detonando a língua do Grande Irmão do Norte.
(13.07.07)
Na próxima terça, dia 10, Geraldo Carneiro se apresenta ao lado do poeta Salgado Maranhão no sarau poético do Jasmim Manga Cyber Café, em Santa Tereza (RJ), às 20:00. O evento é organizado pelos irmãos Bebeto e Eduardo Tornaghi.
(06.07.07)