já naveguei ao largo de Noronha
num navio que se chamava Augustus.
depois ele partiu, foi recolher-se
aos estaleiros para nunca mais.
foi a viagem derradeira dele
e foi o meu princípio.
alguma coisa sempre chega ao fim
quando outra, inesperada, principia.
(30.09.07)
uma palavra não é uma flor
uma flor é seu perfume e seu emblema
o signo convertido em coisa-imã
imanência em flor: inflorescência
uma flor é uma flor é uma flor
(de onde talvez decorra
o prestígio poético das flores
com seus latins latifoliados
na boca do botânico amador)
a palavra, não: é só florilégio
ficção pura, crime contra a natura
por exemplo, a palavra amor
in Folias Metafísicas, Editora Relume-Dumará, 1995
(14.09.07)
eu não sei nada.
não sei, por exemplo, onde fica a Abissínia,
a Bessarábia, nem o Sri Lanka
(minto, o Sri Lanka, sim, suponho
seja a porção ao sul do Mar das Índias,
antigo Ceilão, cuja capital,
em minha geografia improvável,
deveria se chamar Sei Lá)
não sei em que descaminhos da História
perdi o Congo Belga e Madagascar.
só conheço as províncias da ficção
essas, felizmente, imutáveis:
Shangri-lá, Pandemônio, Xanadu
e outros eldorados da imaginação.
desconheço os mistérios da semântica,
misturo alhos e bugalhos,
nenúfares e putifares;
não sei por que torções a linguagem
se empavona ou se desempluma;
em suma, só admiro as palavras
como o selvagem admira um helicóptero.
a despeito dessa imensa ignorância
às vezes por acaso me deparo
com uma cena, um gesto, uma palavra
cujo esplendor desperta um mar de ressonâncias.
e de repente a insolência do sol
ilumina as minhas trevas
e eu sou como um deus parindo o mundo.
in Lira dos Cinquent'anos, Editora Relume-Dumará, 2002
(06.09.07)
(para A.P.P)
tomara que um dia
o incerto se torne certo
os poemas indizíveis
sejam dizíveis
e os poemas dizíveis
sejam indizíveis
(31.08.07)
A convite do diretor Eryk Rocha, Geraldo Carneiro participa de mesa-redonda sobre mitos luso-afro-brasileiros, no dia 29, às 20:00, dentro da série Cinema que Pensa, no Cine Odeon. (24.08.07)
o mar da minha vida
é feito de desejos destronados
o ar o arabesco a arquitetura
tudo que sonho sempre me ultrapassa
e fica essa memória que não passa
daquilo que, vivendo, não vivi.
meu coração inventa seus navios,
sou corsário no rumo do poente
entre as antilhas que me descobri.
vou singrando as avenidas da noite
alastrado de estrelas e relâmpagos
com meu lastro de sol e de alegria.
um dia chegarei ao mar-oceano,
serei senhor dessa fragata-vida
(24.08.07)
para John Neschling
já naufraguei no pântano do nada
mas me salvei puxando meus próprios
/cabelos
como o Barão de Münchausen
e inventando a vida antes que ela se
precipitasse
no caos
ou se deixasse abater como ave
na aventura-vôo de viver
(e por favor não venha me falar
em Nietzsche
senão vai constranger a minha amada,
porque ela já pensou que Schopenhauer
era uma marca de cerveja)
(11.08.07)
Recebi semana passada o Soneto 15 de William Shakespeare retraduzido pela poeta Thereza Christina Rocque da Motta. O poema já havia sido traduzido por meu amigo Jorge Wanderley, primeiro tradutor em língua portuguesa do texto integral dos sonetos, há dezessete anos. Não resisti à tentação de arriscar uma nova versão do soneto, que fica aqui dedicada à Thereza e ao Jorge, e a todos os demais tradutores do passado e do futuro. (G.C.)
Geraldo Carneiro participa de mesa redonda sobre poesia, na PUC, no domingo, dia 5, às 17:00. O tema do debate é "Contaminações."
Para ilustrar a futura conversa, aqui vai um poema que fala da contaminação
da poesia pelos poemas anteriores. (E não é improvável pensar também na contaminação dos poemas futuros):