Isto não é um prefácio. Viva o Povo Brasileiro não
precisa de prefácio. Nem é um panegírico, embora haja
muitas razões para celebrar. Os prefaciadores, de modo
geral, fingem que não têm partido previamente tomado
a propósito do livro. Eu tenho. Creio que existem livros
fundadores, cuja complexidade é o simulacro do mundo,
cuja leitura suscita uma epifania. Livros que encarnam o
nascimento mítico de uma nação, ou a última encarnação
de Vishnu. Viva o Povo Brasileiro é desses poucos, raros
livros fundamentais.
Pronto, está confessada a opinião. Ao leitor esperto,
sugiro que vá direto ao texto e não perca tempo com estas
mal fundadas especulações. Se não é esse o caso, tenho o
prazer de revelar como se alça a (precária) arquitetura do
meu pensamento. Lá vai.
Desde o final dos anos 50, a literatura brasileira foi
submetida a uma dieta ditada pelas chamadas vanguardas.
E isso, cá entre nós, foi ótimo, porque acabou eclipsando
grande parte do besteirol do beletrismo: a literatura como
sonho de menina moça ou como sorriso da sociedade dos
bacharéis.
Não havia mais prosa que prestasse no Brasil. Pelo
menos, segundo as vanguardas. Aliás, se você acreditasse
nas vanguardas, o único prosador que prestava, em todos
os tempos, era James Joyce. E não qualquer James Joyce
(o do Retrato do Artista Quando Jovem e do Dublinenses,
por exemplo, nem o do Ulysses): só prestava o Joyce do Finnegans Wake, livro esse que só eu e mais meia dúzia
de malucos lemos como ato de fé, compreendendo pouco
menos do que xongas.
Havia exceções toleradas pelos gurus da novilíngua.
Por exemplo, a prosa meio joyceana de João Guimarães
Rosa. E, além da prosa do Rosa, se a maré fosse de bom
humor, podiam figurar no paideuma (palavra esquisita,
contrabandeada via Ezra Pound) dois ou três fragmentos
da desinvenção da língua portuguesa, que os doutores da
Igreja arbitrariamente canonizassem conforme seu Credo.
Mas sempre abominando a tal da discursividade, ou seja,
a mania de escrever uma palavra seguida de outra palavra,
coisa perfeitamente anacrônica. Carlos Drummond? Era
um chato. Vinicius? Epicurista démodé. Jorge de Lima?
Um neo-parnasiano.
De repente, em plena vigência do ABC vanguardista,
explode Viva o Povo Brasileiro. E já começa instaurando
uma metafísica e evocando os orixás da epopéia, exibindo
suas armas e barões assinalados e chamando ao proscênio
dramático da narrativa ninguém menos que Camões:
“Envoltos nas brumas da lenda, esses homens do Destino
logo dilataram por todas aquelas terras a reputação de seu
valor incomparável, a beleza de seu cada gesto, a força
certeira de cada coisa dita, o caráter jamais quebrantado
por fraqueza humana.”
É difícil enumerar ao leitor os motivos da grandeza
poética deste fragmento. A começar pelo verbo “dilatar”,
datado do século XV, depois celebrizado n’Os Lusíadas,
passando pela sintaxe trovadoresca de “a beleza de seu
cada gesto”, até a palavra “quebrantado”, de quebrantar,
datada do ano de 897, sendo portanto uma das primeiras palavras da língua portuguesa. Em suma, Viva o Povo
Brasileiro é também a história das maravilhas da língua.
Mas, por ora, vamos aos fatos narrativos.
O narrador é Deus. Fora do seu universo, tudo se
precipita no caos. As narrativas clássicas - Os Lusíadas,
por exemplo – emprestam ao narrador uma onisciência
semelhante à dos deuses. Se não me engano, uma única
vez o narrador d’Os Lusíadas se permite um desabafo,
digamos, de pessoa física. “Não mais, musa, não mais
que a lira tenho/ destemperada e a voz enrouquecida.”
Em suma, faz parte da configuração clássica do narrador
essa dimensão metafísica, enquanto a condição humana
é, como dizia o próprio Camões, a de um bicho da terra
tão pequeno.
No entanto, já no final da descrição camoniana da
morte do alferes José Francisco, infiltra-se um cronista
gaiato que faz o inventário de seus (do alferes) escassos
bens materiais:
“(...) mas José Francisco, por só ter no mundo uma
mãe entrevada, uma irmã nem donzela, duas galinhas,
uma fisga de três pontas e um gibão de punhos agaloados,
não trouxe nem representou prejuízo.”
E quando, ao final do inventário dos bens do alferes,
o narrador de Viva o Povo Brasileiro regressa ao terreno
da epopéia, suas palavras passam a ser lidas também pelo
avesso, configurando uma espécie de anti-epopéia. E sua
grandiloqüência se converte em ironia.
Como se não bastasse, no parágrafo seguinte, quem
assume o controle da narrativa é uma espécie de Jonathan
Swift dos trópicos. E chega: não me atrevo a inventariar as graças narrativas de Viva o Povo Brasileiro, porque, além
de usurpação das prerrogativas do leitor, seria obrigado a
parafrasear quase todo o livro, em exercício semelhante ao
de Pierre Menard, o autor do Quixote, fábula essa em que
o poeta Jorge Luís Borges se empenha em fazer galhofa
de quem se mete a reescrever os clássicos.
O que importa é assinalar que o narrador de Viva o
Povo Brasileiro abdica da univocidade – se o leitor me
perdoa o palavrão - pretendida pela narrativa clássica.
Univocidade significando o esforço de criação de uma
identidade monolítica do narrador. Por exemplo: 1) em
Grande Sertão: Veredas, é a voz do jagunço Riobaldo
que conta suas peripécias ao seu invisível interlocutor;
2) em Os Sertões, é a voz do repórter Euclides da Cunha
que relata a campanha de Canudos. Em miúdos, cada um
desses personagens-narradores configura uma espécie de
moldura psíquica, cuja ruptura significaria o fim do pacto
da verossimilhança, aquela velha suspension of disbelief
preconizada pelo poeta inglês Samuel Taylor Coleridge,
que, embora romântico, desconfiava que a linguagem
não dispusesse de poderes absolutos para representar o
mundo. E talvez tivesse razão.
Já em Viva o Povo Brasileiro, o narrador se oferece
à leitura como conjunto de múltiplas vozes, de máscaras
através das quais a narrativa se complexifica e propicia
uma dupla leitura simultânea, como epopéia e paródia.
Não vou ficar esmiuçando essa multiplicidade, porque
o leitor terá por conta própria o direito da descoberta.
Também tentarei resistir à tentação de mencionar
duas ou três idéias do filósofo húngaro Georg Lukács,
autor de uma pouco mencionada, porém imprescindível
Teoria do Romance, na qual discute a gênese histórica e filosófica da espécie. Seria interessante que especialistas
comparassem Viva o Povo Brasileiro com reflexões em
que Lukács sugere, por exemplo, que: “O romance é a
epopéia de um mundo sem deuses: a psicologia do herói
romanesco é demoníaca, a objetividade do romance é a
viril e madura constatação de que nunca o sentido poderia
penetrar de lado a lado a realidade e que portanto, sem ele,
esta sucumbiria ao nada e à inessencialidade.” Se tivesse
erudição e eros-dicção para tanto, eu gostaria de verificar
de que modo preciso a arquitetura conceitual de Lukács,
concebida a partir de um mundo em que o romance era
uma chama agonizante, resistiria ao embate com os fogos
bárbaros do admirável mundo novo de João Ubaldo, com
seu canibalismo pós-calibânico. Gostaria de verificar se as
idéias de Lukács seriam prisioneiras de um eurocentrismo
congelado no tempo, enquanto, na periferia do Ocidente, a
história se reinventa num romance made in Bahia.
Aliás, parte dos encantos simbólicos de Viva o Povo
deriva talvez da capacidade de fundar sua própria história
a partir de uma visão-de-mundo baianocêntrica, que sagra
(embora essa sagração se faça quase sempre sob o signo
da ironia e do humor), como cânone da nacionalidade, a
história da Bahia e de seus principais ícones (y compris o
alferes Galvão Brandão e o anti-Herói Perilo Ambrósio),
e não a história colonialista dos Estados Unidos do Brasil.
Se o leitor me permitisse um paralelo geopolítico, eu diria:
Viva o Povo é um ato simbólico de rebelião separatista,
como as bombas do Exército Republicano Irlandês ou a
abnihilation of the ethym das ficções de James Joyce.
Esse descentramento inaugura um mundo simbólico novo,
regido por outros deuses, outras cosmogonias. E talvez
seja também condição sine qua non para que o narrador de
Viva o Povo tenha a capacidade de assumir tantas vozes.
E talvez nesse descentramento esteja também a chave
para compreender que Viva o Povo se instala no não-lugar
e no não-tempo, no paradoxo de um espaço atópico e de
um tempo acrônico. Estabelecido em seu não-lugar e nãotempo,
contra as convenções históricas e literárias dessa
narrativa mitológica chamada Brasil, funda-se o universo
paralelo de João Ubaldo, que, embora pertença ao corpo
da literatura luso-brasileira e se alimente de seus cânones,
lhe é estrangeiro.
Também no campo da arte da representação, Viva o
Povo é atravessado por essa dupla determinação. Por um
lado, reafirma a imagem clássica do romance, um gênero
histórico cuja genealogia, conforme o repertório, pode
remontar à Espanha de Cervantes, ou, mais remotamente,
às aventuras do Príncipe Genji, escritas em plena Idade
Média (média para nós, os corações desocidentados) por
uma japonesa cujo nome – por incompatível com a glória
ocidental – não me atrevo a reproduzir. Certamente, o
leitor de romances encontrará em Viva o Povo todos os
recursos de uma narrativa romanesca. E encontrará, no
entanto, momentos de turbulência, passagens e fragmentos
em que a linguagem não se contenta em representar uma
cena, mas deseja ser aquilo que representa. Também deixo
por conta do leitor o deleite de encontrar exemplos de tais
portentos (na fala de Dadinha, no aprendizado do Caboco
Capiroba etc.): como se diz em português contemporâneo,
it’s up to you, brother.
Não me arriscaria a afirmar que Viva o Povo deve ser
lido como uma declaração de guerra anti-imperial, tendo
entre seus antagonistas - além dos mais óbvios – a deusa
da sintaxe e quaisquer poderes imperiais do passado e do
futuro. Sei, no entanto, que, ao contrário dos clássicos que
lhe servem de modelo, Viva o Povo se insurge contra a canonização de uma determinada fala – e qualquer desejo
de canonização de uma fala serve como metáfora de todos
os projetos imperiais, seja no reino da poética ou no da
política. Desconfio que Viva o Povo Brasileiro proponha
um exercício de contínuo descentramento, e que, em seu
percurso, a linguagem, embora se solenize e crie modelos
de excelência, promova sua própria erosão e derrisão.
Mas, a despeito de todas suas qualidades corrosivas,
Viva o Povo Brasileiro é uma celebração da língua e de
seus inventores. Caberá aos leitores do futuro o gozo de
desentranhar de Viva o Povo fragmentos dos prosadores
barrocos, das aquisições mais radicais do modernismo e
até mesmo laivos do desvario parnasiano, reinventados
em meio a esse banquete da linguagem. Dentre as tantas
qualidades de Viva o Povo Brasileiro, uma das maiores é
a de despertar em nós, leitores, o desejo da linguagem. E,
se a mim a alegria da releitura de Viva o Povo Brasileiro
suscitou três ou quatro poemas, suponho que continuará
suscitando poesia nos leitores do futuro, cuja música e as
musas, espero, sejam melhores do que as minhas. E assim,
como queria Luís Vaz de Camões, transforma-se o amador
na cousa amada: Viva o Povo Brasileiro continuará sendo
uma alegria para sempre.
Geraldo Carneiro