Geraldo Carneiro trabalha, neste seu novo livro de poemas, em dois registros
principais: o sério e o jocoso. Só que sua seriedade implica uma visão
irônica e sua jocosidade aborda questões graves. Joco-séria é, portanto,
a definição mais precisa de sua poesia, pois enquanto seu approach
pressupõe o sentido amplo da palavra "jocoso" (aquele que, derivando do
"jogo", é lúdico mas obedece a regras estritas), seu assunto central não
poderia ser mais relevante.
O que Carneiro tematiza no correr do livro
é a possibilidade mesma de se fazer poesia hoje no Brasil, uma poesia
que seja naturalmente moderna e indiscutivelmente brasileira. A modernidade
em questão é buscada não apenas na coloquialidade da fala ou na contemporaneidade
das referências, mas sobretudo no modo de organizar cada texto, na maneira
de termina-lo em aberto numa espécie de inconclusividade programática
que dirige a atenção não para uma mensagem qualquer, mas ao modus
operandi do poeta. O caráter brasileiro manifesta-se, por sua vez,
não na cor local de peculiaridades idiomáticas, mas na procura de um conjunto
pertinente de preocupações que, embora familiares, não bajulem as nostalgias
provincianas.
Em outras palavras, as definições temporal (modernidade) e territorial (brasilidade) se interligam, amalgamando-se sob a espécie de um projeto inerente: o de achar um modo de pensar o país, este país, de acordo com uma linguagem apropriada.
Para tanto, ele retorna incessantemente às raízes do modernismo (isso explica sua quase obsessão com Olavo Bilac: há algo mais modernista do que falar nos parnasianos?). E o que está no âmago do modernismo nacional não é, ao contrário do que se pensa, a coloquialidade e, muito menos, a ditadura do coloquial - pensar assim é que é reduzi-lo a uma minúcia idiomática superficial -, mas sim a informalidade enquanto atitude estética e também ética.
A formalidade é um estilo que diz intrinsecamente
amém à mentalidade ancien régime brasileira, seus privilégios
de nascença e suas divisões sociais arcaicas - e essa formalidade pode,
sem nenhum pudor, expressar-se em "coloquialês", pois ela continua
sendo o último refúgio da pré-modernidade. A informalidade, que os modernistas
tentaram consolidar como substrato do idioma literário nacional, consiste,
entre outras coisas, em não usar a linguagem como fator de separação de
castas e começam quando o autor se expressa sem os trejeitos empostados
dos bacharéis de Direito (em 1922) ou de Letras, Filosofia e Sociologia
(hoje). Subjaz a esta atitude a aptidão de distinguir (como já disse antes)
forma de fôrma, uma aptidão, que pode tanto se valer
da norma culta quanto das diversas gírias, bem como de tudo que se encontre
entre ou fora delas.
É fácil verificar o quanto, aliás, a afetação
nostálgica prescinde das 14 linhas regulamentares e rimadas do soneto,
tendo se tornado inclusive capaz de cinzelar seus clichês até mesmo em
verso livre. Daí a importância de uma poesia como a de Carneiro, que presta
um verdadeiro serviço público ao patentear, por sátira e/ou contraste,
o ridículo dos poetas que, à maneira de uma nova geração de 45, procuram,
alardeando tiques pseudodoutos, restaurar o status quo ante para
valorizar no mercado o verniz sintético rachado do que pretendem vender
como uma autêntica cultura literária nos moldes antigos. A esses bourgeois
metidos a gentilhommes, a esses candidatos a gênios cuja única
precocidade é a da esclerose, Geraldo reserva uma expressão feliz: eles
não são nouveaux riches, mas "novos Rilkes".
Está suficientemente claro, assim, que, a
seu modo - que não deixa de ser sutil e discreto -, a poesia deste volume
participa de um programa mais amplo, que é também um combate. A modernidade
social, política e econômica está longe de estar consolidada no país e
a literatura tem alternadamente assumido o papel de seu mais energético
porta-voz e seu antagonista mais insidioso. Criar uma linguagem que, mais
do que apenas exprimir competentemente a modernização, tornasse, por meio
do descrédito estético/intelectual e do ridículo, inviável qualquer recuo
ou reação - that's what Brazilian modernism was all about. Uma
das inconfundíveis marcas de nascença dos escritores pertencentes ao ancien
régime é levarem-se demasiadamente a sério. Outra grande conquista
do modernismo, portanto, é a demostração de que no Brasil só se pode falar
do que quer que seja cum grano salis, ou seja, matendo-se um
mínimo de distanciamento.
Este sempre está presente em 'Folias Metafísicas',
cujo título mesmo remete tanto a uma zombaria das pretensões filosofizantes
em geral quanto, particularmente nos seus primeiros poemas, a uma outra
metafísica menos conhecida, a da escola homônima de poetas ingleses do
século 17, poetas que eram capazes de seduzir uma mulher falando de suas
pulgas ou de demonstrar seu amor com um compasso. O lado metafísico se
revela quase conceptista no wit de poemas como "À Flor
da Língua", "À Flor da Fala", "Os Fogos da Fala" e "A Linguagem das Flores".
Nestes, Carneiro trabalha um lirismo meditativo cujo recuso central é
amenização sonora da transição abrupta das idéias. "À Flor da Língua"
é exemplar:
uma palavra não é uma flor
uma flor é seu perfume e seu emblema
o signo convertido em coisa-imã
imanência em flor: inflorescência
uma flor é uma flor é uma flor
(de onde talvez decorra
o prestígio poético das flores
com seus latins latifoliados
na boca do botânico amador)
a palavra, não: é só florilégio
ficção pura, crime contra a natura
por exemplo, a palavra amor
Aqui, segundo o viés irônico que implica (mas
não se resume a) uma meditação sobre a poesia, através de "imã",
a "coisa" se transforma em "imanência" que, amalgamada
a "flor", torna-se "inflorescência", para chegar mais
adiante, via a etimologia de "florilégio", com menção honrosa
a Gertrude Stein (a rose is a rose etc), à "ficção pura"
de um "crime contra a natura". Num poema como este, a negociação
sonora de palavra em palavra, a memória de um sentido inscrita em cada
som distrai habilmente o leitor da thabilmente o leitor da trama conceitual
que o leva imperceptivelmente da palavra "flor" à palavra "amor",
sem que ele se dê conta de como é que chegou lá. Isso, portanto, obriga-o,
a retornar sobre seus próprios passos para (como o cavaleiro da famosa
anedota, que havia atravessado, sem saber, um perigoso lago congelado)
constatar o caminho complexo que havia percorrido.
Ainda assim, há na poesia de Carneiro um aspecto
"culteranista", mas este é igualmente filtrado pela sensibilidade moderna.
Um poeta setecentista podia se dar ao luxo de lançar mão de toda a mitologia
clássica na medida em que esta pertencia a uma alta cultura consensual
e compartilhada. À sua maneira, um simbolista também podia discorrer,
digamos, sobre Herodias, Perséfone ou Eurídice, embora procurando - e
encontrando - nelas under e overtones inimagináveis
no mundo antigo. Com a transição para a modernidade, a abordagem dos mitos
tornou-se necessariamente ou irônica ou, por assim dizer, corriqueirizante.
Surgem duas opções possíveis para Ulisses: transformar-se (1) na personagem
kafkiana que não mais ouve sereia alguma; ou (2) no vendedor ambulante
de anúncios de jornal de uma prosaica Dublin quase contemporânea. Qualquer
tentativa de ressuscitar abordagens anteriores estaria obrigatoriamente
reduzida ao kitsch. É assim que se faziam as coisas durante a
primeira fase da modernidade literária - o high modernism - que
tinha entre seus objetivos mostrar quão artificial e desligada do mundo
atual se tornara a alta cultura compartilhada pelas gerações que vieram
antes.
No momento presente da modernidade, porém, os mitos clássicos já não nos chegam diretamente como ainda o faziam há duas gerações, mas sim em versões infinitamente espelhadas e refratadas pela diluição que o ensino falido veicula com suas traduções, adaptações e deformações na cultura de massas. Ou seja, mesmo o Ulisses irônico ou o prosaico já foram devidamente digeridos e reutilizados milhões de vezes. Tornaram-se, na melhor das hipóteses, mitos de segunda mão. Se na primeira metade do século uma das tarefas mais interessantes consistia em, de um ou de outro modo, explicitar os elementos cotidianamente humanos das velhas histórias desgastadas, uma possibilidade que se abre hoje ao poeta é a de retomar o que há de profundamente diferente em mitos oriundos de civilizações virtualmente incompreensíveis para nós.
Num poema como "A Origem da Espécie", Carneiro faz exatamente isso com um mito, o de Orfeu, que ele não tanto reconta como quase que conta pela primeira vez numa linguagem de verbetista cansado de enciclopédia. O resultado do recurso à antipoesia acaba sendo o de anular as camadas de ferrugem e vulgarização que recobriam o mito, de modo a recupera-lo enquanto tal na sua oblíqua distância antropológica.
Trabalho semelhante é realizado pelo poeta num texto que é antes uma espécie de tradução criativa. Trata-se do "Apocalipse". Carneiro reencena a famosa Revelação de São João num linguajar de funkeiro de morro carioca. Dita assim a idéia parece simples, mas é, sem dúvida, um achado. O que o poeta "acha" no texto canônico é seu último e mais profundo estrato de pura oralidade originária. Neste sentido, vazá-lo em gíria iletrada atual é como restituir algo de seu aspecto primeiro, explicitando concomitantemente sua estranheza.
Os exemplos acima ilustram outro aspecto deste livro: a variedade de recursos
de que se vale. Seus textos podem oscilar entre o conceptismo
e o culteranismo, um cultismo, aliás, que é ao mesmo
tempo desmistificador e remitificador; eles podem ser líricos, satíricos,
mediativos ou mock epics, mas o essencial é que buscam se adequar,
mesmo que no entrechoque, a cada uma das intenções do autor, sem caírem
numa auto-fetichização. A pluralidade de recursos - e não pluralidade
como mera opulência, mas sobretudo como uma discussão entre várias possibilidades
técnicas competitivas - manifesta-se inclusive no interior de vários poemas.
O melhor exemplo disso é o ciclo formado por "Manual dos 40", "Crítica
ao Manual dos 40" e "Diagnóstico", que, ao propor diversos enunciados
devidamente numerados, a crítica destes enunciados e um juízo sobre eles
- sem que em nenhum momento se possa saber em qual das instâncias o poeta
estaria de fato, se é que está - compõe um triálogo que, em seu conjunto
e incluindo conscientemente as contradições internas, faz o papel de Arte
Poética orientando a leitura do livro no seu centro descentrado.
Numa época em que certos poetas parecem cada vez mais requerer, na falta de brumas místicas, emanações de gelo seco para emoldurar sua desconversa tediosa, Geraldo Carneiro recoloca, com seriedade e humor, a poesia no lugar que lhe cabe - ou seja, no centro das preocupações culturais de uma época que não admite retorno. 'Folias Metafísicas', em cada um de seus poemas, sobretudo defende e ilustra tanto a modernidade em geral quanto a dignidade do projeto modernista nacional - e, no Brasil do presente século, ou se é modernista, ou irrelevante -, provando e comprovando que a poesia pode - e deve - ser uma atividade profundamente pertinente.
Nelson Ascher