Estamos aqui de novo, todos juntos, na casa branca de Olívia
Byington. Ficava no meio do mato alto da Gávea, floresta
remanescente dessa Gávea ainda emocionante. Ainda está aqui em
volta, mas a favela agressiva (do ponto de vista nosso) continua
crescendo, subindo e descendo.
Eis-nos, tantos amigos, festejando uma amizade de 30 anos entre
Geraldinho Carneiro e o jornalista que vos tecla.
Curioso que se comemorem tantos tempos e datas, nascimentos e
mortes marcados por sua inevitabilidade, glórias militares e acordos
políticos sempre duvidosos, casamentos que mal sobrevivem,
festividades tantas vezes apenas pra constar e só o Geraldinho,
agora, tenha tido a idéia e a coragem de aprofundar e fixar com
festa, e como festa, a idéia da Amizade.
Para isso é necessária a consciência do tempo que passa, é preciso o
sentimento de valores fluidos, para os quais não temos meios de
aferição, e cuja data inicial quase sempre se perde no além do
passado. Esgarçada e indefinida, mais intensa hoje, menos intensa
amanhã, porém profunda e permanente, mesmo quando parece
apagada e diluída, a amizade vai e volta em seu mistério. Nela pode
até haver rompimento, como no casamento, mas ninguém “se
separa” e pede partilha de bens.
Eis-nos, os dois amigos principais, os festejados de hoje, rodeados
por amigos de quase tanto tempo, de muito menos tempo e de muito
pouco tempo.
Conheço Geraldinho desde menino, senão não poderia estar
comemorando com ele 30 anos de amizade, menino que ainda é.
Carioca de educada formação mineira, sucessor, enquanto mineiro,
da geração de Otto Lara Rezende, Fernando Sabino e Paulo Mendes
Campos, cronista como um, poeta como outro, culto e gozador da
vida como os três.
Tingido (tinto) sempre da irrecusável e perene modernidade da vida,
Geraldinho, do alto do Alto Leblon onde morou, e da perspectiva de
suas outras moradias em casas no meio da Mara do Jardim Botânico
(onde sempre me sinto em Macondo), não pretende se livrar do
antigo. Assim, dono dos dois tempos, vibrando no de hoje, ele é, quase todos os dias, Geraldo Carneiro, poeta. Com Francis Hime
(sobretudo em sua bela fase ufanista), dezenas de vezes com
Gismonti (anotem Corações Futuristas), parceiro de vida e trabalho
do cigano Wagner Tiso, e pósmilongueiro com Astor Piazzolla
(lembrem Olhos de Ressaca), ele é poeta-musicista.
Nas horas de lazer, Geraldo Carneiro coopta Shakespeare, a partir de
traduções impecáveis de The Tempest e As You Like It, e
transposição da apaixonada metafísica dos Sonetos – onde deita e
rola, pois, como o vate inglês, também não resiste a um bom
trocadilho.
Perguntar-me-eis: ode se encontra esse Geraldinho? E eu respondo.
Por aí. Algures ou alhures. É fácil reconhecê-lo, ao passar por ele na
25ª hora.
O poeta usa o cabelo pelos ombros, e muitos vêem isso como coisa
de late hippie, hippie tardio.
Mas eu, como já dito, amigo do poeta em seu melhor, sei que isso é
apenas armadilha de sedutor. Que, ao sair para a aventura do dia, no
cair das noites, imita o lendário Castro Alves: de maneira petulante,
ajeita no alto da testa a aba e um chapéu metafórico, e ameaça, ao
espelho: “Tremei, pais de família!”
Geraldo Carneiro, em qualquer atividade, é sempre poeta.
Janeiro de 2001