Quem é Geraldo Carneiro?
GC: Não sei. Provavelmente, são muitos, tantas são as atividades profissionais dele. Às vezes é um impostor que se faz passar por mim. O título de seu último livro, Balada do Impostor é uma pista disso. Ou é um psicótico que sofre de Desordem da Personalidade múltipla. Aliás, o poema-título de seu-meu último livro fala a propósito disso:
sou um impostor, um dia saberão
que simulei tudo o que sempre fiz.
sou uma ficção, meu sangue é só linguagem.
meu sopro é uma explosão que vem de dentro
em forma de palavra.
quando já não for mais, serei eu mesmo.
enquanto tardo, trapaceio contra o tempo,
a máquina que vai me devorando,
e vou passando como tudo passa,
em busca de uma graça que ultrapasse
o círculo da minha circunstância,
o espelho que não seja senão o outro,
esse que me habita e que me espreita,
e não sendo eu me acata os meus espantos.
Como foi sua infância no Leblon?
GC: Paradisíaca. Era uma bairro pouco povoado, de comércio provinciano e cheio de gringos que me ensinaram coisas tão extraordinárias, para a época, como o skate, os Beatles e a corrida de submarino, isto é, namorar dentro dos carros diante da praia. Que submarino iria passar por ali? Só se fosse o Yellow Submarine, de Lennon e McCartney.
Paulo Mendes Campos foi amigo de seu pai. Como foi a sua convivência com ele.
GC: A princípio, uma convivência beligerante. Quando eu tinha dez anos, por causa de uma discussão sobre futebol, Paulo Mendes Campos quase me estrangulou. Quem me salvou a vida foi outro amigo da família, o pernambucano Jorge Campello, que passou, viu a cena e disse: “Paulo, o menino está ficando roxo!” Depois, piorou. Quando eu tinha treze anos, uma professora de português mostrou um poema no colégio, traduzido para o português, com o nome do autor debaixo do texto. (Até então, só conhecia os poetas mais populares da época, como Drummond, Vinicius e Bandeira, e os meus amados darks do passado, Cruz e Souza e Augusto dos Anjos, de quem era fã.) Fui até o Paulo, que era enciclopédica de poesia, e lhe perguntei: “Você conhece algum poeta inglês com o sobrenome começado pela letra V? Era tamanha a cultura poética dele que chegou a mencionar três ou quatro nomes, antes de desconfiar do meu equívoco. E disse: “É por acaso Valéry?” E eu, candidamente: “Esse mesmo.” E ele me fulminou com uma de suas expressões preferidas: “Seu débil mental!” Quando eu tinha quinze anos, surpreendentemente, Paulo me ofereceu três poemas dele, belíssimos para que eu os musicasse. Um deles, aliás, parafraseava o Drummond e dizia assim:
“Meus olhos mineiros devoram sereias
Minha pele triste bebe o sol
Querendo que eu desafine
Passa nas pautas do vento
Um anjo só de biquíni
Só no meu apartamento
No copo de uísque eu mato Isabela
Coitada dela!
Sereias de areia
Solidões de areia
Nascendo da areia
Voltou ou não volto?
Não volto mais, Minhas Gerais.
Cinco anos mais tarde, eu estava estudando inglês na casa da professora Janet Estill, amiga de minha mãe e da Joan, mulher do Paulinho (era assim que o chamávamos lá em casa), e, por acaso, ele telefonou para perguntar a ela se ela se lembrava de dois versos que ele havia perdido no oceano da poesia inglesa. Me lembro deles como se fosse hoje:
“After so many years light is
Novel still and immensely ambitious”
Por acaso, eu tinha acabado de ler os versos na véspera e disse à Janet: quem escreveu o poema foi o W.H. Auden. Ela imediatamente pegou o telefone, ligou para o Paulinho e lhe disse que eu havia acabado de revelar, de memória, a origem e o autor do poema. E o Paulo deve ter pensado: “Puxa! Nos últimos anos esse débil mental aprendeu muito!” O detalhe sórdido da história é que eu jamais revelei ao Paulinho a coincidência. E ele deve ter achado que eu me tornei um expert em poesia inglesa, coisa que infelizmente não sou.
Como se tornou letrista?
GC: A princípio, queria ser músico. Mas a música era insuficiente para expressar minha perplexidade diante do mundo. A palavra foi tomando o seu lugar, não só por minha iniciativa, mas sobretudo pela de meus parceiros musicais, que me encomendavam letras, supondo que eu soubesse escrevê-las. Depois, aos 16 anos conheci Egberto Gismonti e percebi que eu era um músico medíocre. E, como ele era um letrista quase tão medíocre como eu era músico, resolvemos nos tornar parceiros, e diminuir o estrago que cometíamos no repertório da MPB.
Como vai ser o seu poema com a palavra coitovia que você disse ter roubado de nosso querido Wilmar Silva?
GC: Adoro neologismos. Inventar palavras é uma das minhas maiores alegrias literárias. Certa vez exagerei na dose, e meu amigo Millôr Fernandes decretou: “Este ano você só tem direito a criar doze neologismos.” Quando conheci a coitovia do Wilmar, fiquei encantado e pensei logo na cena da despedida de Romeu e Julieta. Meu plágio vai ser alguma coisas como: “O que é que Romeu ouvia/ no canto da coitovia?” Claro que vou dedicar o poema a ele, porque não sou ladrão de neologismos. Mas fiquei morrendo de inveja da coitovia dele, que é um esplêndido poeta.
Como foi o seu contato e parceria com Astor Piazzola?
GCPiazzolla tinha ouvido em Buenos Aires o disco (naquele tempo chamava-se assim) Água e Vinho, do Egberto Gismonti, que tinha seis letras minhas. E adorou. No ano seguinte, 1973, ele veio ao Brasil com sua mulher Amelita Baltar, e pediu que nossa amiga comum Nana Caymmi me procurasse, perguntando se eu queria fazer canções com ele. Claro que adorei. Nos tornamos amigos, fizemos mais de dez canções juntos e ele me convidou para passar uma temporada em Roma, onde ele morava, para escrever um musical sobre Eva Perón. Claro que fui. Escrevi um libreto, escrevemos mais meia dúzia de canções, mas o musical nunca chegou a ser realizado, por diversos motivos, inclusive ameaças à vida da filha dele, Diana, que militava no grupo Montoneros, movimento político contrário à ditadura argentina. Mas ficamos amicíssimos até o fim da vida dele, e tivemos algumas canções gravadas aqui, pelo Ney Matogrosso, a Olívia Byington e As Frenéticas, e na Argentina, pelo próprio Piazzolla e pelo cantor José Angel Trelles.
Fale sobre a sua maravilhosa parceria com Egberto Gismonti.
GC: Desde que conheci o Egberto, em 1969, fiquei deslumbrado. Ele tinha 20 anos, e já tocava piano e violão como um craque. Já naquele momento tive a impressão de que ele seria um dos maiores músicos do nosso tempo. Ao longo de todos esses anos, foi e tem sido um privilégio e uma alegria termos escrito cerca de cinqüenta canções, além de roteiros de balé, música para cinema e teatro. Egberto é das referências fundamentais da minha vida, como pessoa e artista. Fico orgulhoso quando vejo hoje o nome Gismonti em tantas salas de concerto do mundo, junto com nomes como Schuman, Schubert, Mozart, Beethoven, Piazzolla e outros roqueiros da pesada, que pertencem ao rock ‘n’ roll da eternidade.
Conte para quem não leu sobre o livro que escreveu sobre o Leblon.
GC: Escrevi esse pequeno livro por encomenda da Prefeitura do Rio. E, como tenho preguiça de fazer pesquisa, relatei meus anos de aprendizagem nas ruas do bairro. Revelei, por exemplo, o processo mnemônico criado por Paulo Mendes Campos para memorizar as ruas do Leblon. PAG CC JJ BUVAGAR JÁ, com as iniciais de cada uma delas, desde o Jardim de Alá até o canal do Leblon. Se esta entrevista só tiver palavras inúteis, pelo menos terá esta senha mágica para que nunca mais ninguém se perca nos labirintos desse bairro mítico, espécie de Quartier Latin à moda brasileira.
O que dá mais prazer? Traduzir? Fazer poemas? Ou fazer letras?
GC: São prazeres diferentes. Traduzindo você tem que fazer uma espécie de transfusão de culturas, inventando um simulacro do original. Na letra de música você descobre um dos sentidos ocultos na melodia, ou até contraria a natureza dela e impõe um sentido imprevisto, como, por exemplo, em My Funny Valentine, na qual a música é triste e a letra é uma celebração cheia de graça do amor. Já o poema quem inventa análise, é a análise, é a própria linguagem: o poeta é quase um cavalo de santo, ou um escriba à serviço dos kama-sutras oferecidos pela linguagem.
continua...