O que é ser poeta?
GC: Não sei. Talvez ter uma proximidade radical com as palavras aliada a uma certeza de que a realidade é uma alucinação criada pela falta de poesia.
Como você se descobriu poeta? Foi a partir de algum poema que escreveu? Houve um momento preciso em que você percebeu que dali pra frente seria irremediavelmente poeta?
GC: Acho que foram os outros que me incumbiram de ser poeta. Sobretudo meus amigos músicos, que me sugeriam escrever palavras para suas canções. Mas, segundo o anedotário familiar, sempre tive afinidade com as palavras: quando completei um ano de idade, pronunciei a palavra liquidificador. E nunca mais deixei de ser liquidificado pelas palavras.
A poesia é essencialmente um exercício subjetivo. Como o poeta lida, em seu ofício, com questões sociais, econômicas, ambientais? Desenvolver uma visão social crítica ajuda ou atrapalha a poesia?
GC: A poesia, em primeiro lugar, é um exercício da linguagem. Claro que as coisas em redor acabam influenciando, sugerindo temas, gritando. É o poeta quem desenvolve uma visão social crítica, da qual a poesia se beneficia ou não. Há um reacionário como Jorge Luís Borges que é um poeta magistral. E poetas politizados cuja poesia é um tédio.
Hoje, num mundo altamente interativo, em que todas as linguagens criativas parecem se contagiar mutuamente (cinema, música, literatura, artes plásticas), como ser um bom poeta? Qual o instrumental mínimo necessário para se fazer poesia de qualidade?
GC: A poesia se faz com palavras. Se não me engano, são as palavras que arquitetam e estão por trás de todas as idéias do mundo. Portanto, todo ato criativo é um ato poético. E esse contágio é altamente positivo.
A sua poesia se relaciona e/ou sofre influência de outras artes? Como?
GC: De todas as artes. Adoro me alimentar de linguagens não obviamente poéticas, para que a poesia possa criar formas imprevistas nos cânones. De vez em quando, é fundamental que o poeta contemporâneo se torne um selvagem, se dispa de todas as plumas de sua linguagem. Se não, sua poesia se torna uma caricatura, uma repetição.
A formação universitária é importante para o aperfeiçoamento de um poeta? Ela estimula ou reprime a criatividade?
GCNo meu caso, a formação universitária foi muito estimulante. Sempre gostei de fazer paródias e paráfrases de clássicos. E o repertório fundamental dos clássicos, quem mantém em acervo é a universidade.
O que você acha que deveria ser ensinado nas universidades de Letras? Que matérias deveria estudar um poeta?
GC: Concordo com boa parte do currículo das universidades de Letras. Fonologia, Semântica, História da Literatura. Talvez se devesse dar ênfase também à criação, e não somente à repetição dos cânones. E à música, dimensão fundamental da poesia.
Recentemente você esteve na Columbia University e na New York University, conversando com estudantes e poetas norte-americanos sobre criação literária. Que tipo de inquietações eles têm? São parecidas com as nossas? A nossa literatura dialoga de alguma forma com a dos Estados Unidos?
GC: É difícil medir afinidades e desafinidades entre dois mundos a partir de dois únicos encontros. (Se bem que houve também um terceiro, na Flórida.) Mas a poesia tem um repertório recorrente de fascinações comuns. Tanto no plano conceitual quanto no plano da música. É impressionante como um discurso tão raro e rarefeito como o poético consegue se comunicar com línguas estrangeiras. Já tive essa experiência em alguns países do mundo e é como se a poesia, paradoxalmente, fosse uma linguagem cifrada e, ao mesmo tempo, constituísse uma língua universal.
A internet tem sido uma ferramenta muito usada por escritores que não conseguem editar seus livros. Há uma profusão de sites, blogs e fóruns sempre revelando novos poetas. Isso de fato democratiza o acesso à publicação, mas por vezes causa a sensação de que tornar-se poeta hoje em dia é algo muito fácil, todo mundo pode. Você acompanha a circulação de poesia na internet? O que acha da qualidade desses poemas? Já descobriu algum poeta interessante na rede?
GC: É impossível acompanhar a difusão gigantesca de poemas na internet. Em qualquer época, é preciso haver instrumentos de seleção. O poeta Sebastião Uchoa Leite costumava dizer que a poesia é o luxo da linguagem. E esse luxo só acontece sob condições muito especiais de condensação. Mas já me deparei com alguns poemas notáveis na rede. Como todo meio de difusão, a internet vai acabar nos ajudando a selecionar os exemplares da excelência.
A gente sabe de alguns dos seus escritores favoritos: Borges, Camões, Jorge de Lima, John Donne, Pessoa, Shakespeare, Drummond.... daria pra você completar esse time e tentar escalar uma espécie de seleção da literatura mundial, com os 11 melhores de todos os tempos? E se houvesse um técnico, quem seria?
GC: É difícil fazer uma seleção da poesia. Ainda mais pra mim que conheço poucas línguas e não tenho uma erudição como a do Harold Bloom, que se impôs a tarefa de criar um cânone ocidental. Mas, dentre os favoritos do meu time, certamente William Shakespeare seria o camisa 10, pela inteligência poética e dramatúrgica, e o técnico seria Ezra Pound, ouvindo palpites de Jorge Luís Borges.
Por que você considera o Êxtase, de John Donne, o melhor poema já escrito?
GC: Não considero O Êxtase o melhor poema já escrito. Há diversos poemas de Donne candidatos ao título, como A Lecture Upon The Shadow entre diversos outros. Tenho outros cinco poetas de língua inglesa correndo por fora nesse páreo, entre eles Shakespeare e William Butler Yeats. Mas se tivesse que fazer uma lista dos poemas perfeitos, me arrependeria se não incluísse Dante, Camões e Petrarca.
Vou encerrar com um poema escrito há exatos 30 anos.
madrigal triste
eu sou como o rei de um país ensolarado
e todos os vadios me devem vassalagem
assim como as mariposas, as sereias
& os moluscos da beira-mar
aos 25 anos decapitei
o busto de meu avô ex-monarca
aboli por decreto a realidade
e abdiquei também de certas pompas
a preguiça infame
jamais me permitiu demarcar
os limites de meu reino
digamos então que confino
ao Sul com o Paraíso
a Leste com o Oceano Atlântico
a Oeste com as ficções selvagens
de José de Alencar
e ao Norte com minha morte
mas tudo isso não me basta (ai de mim)
queria mesmo era colher o grito pleno
da tua alma cheia de tormentos
(maiores informações em Madrigal Triste,
de Charles Baudelaire)
Agradeço de novo ao carinho de vocês e aqui me despeço desta curta, mas intensa experiência orkútica.