Interessante pensar na música como uma dimensão da poesia. Na prática, no seu processo de criação, qual é a diferença entre o poema e a letra de música?
GC: Varia. Às vezes a poesia já vem impregnada de música. A música, como diz o poeta Ezra Pound, é uma das dimensões fundamentais da poesia. Já escrevi poemas que foram musicados e letras que foram publicadas como poemas. Há momentos em que a poesia e a letra de música se confundem. E às vezes o desafio é transformar em música poemas cuja complexidade não parece se prestar ao exercício da música.
Por que a poesia não é tão popular quanto a música?
GC: De maneira geral, a linguagem da poesia é mais complexa, menos decifrável à primeira audição. Mas, como já disse acima, esse limites são variáveis.
Você já se sentiu discriminado pela turma mais ortodoxa da literatura por ser letrista da MPB, ou vice-versa?
GC: Não. Depois de Vinicius, todo poeta de livro tem uma inveja - secreta ou revelada - da poesia das canções. É um privilégio, para qualquer um de nós, freqüentar os dois mundos.
A Barca do Sol tem muitos admiradores na comunidade. Como era a sua relação com a banda?
GC: A melhor possível. Sou parceiro de canções de todos os integrantes da Barca - com exceção do Marcelo Costa, que, se não me engano, nunca fez uma canção. Tenho umas cinqüenta canções em parceria com meu irmão Nando Carneiro, mas creio que todos os barqueiros são, de certa maneira, meus amigos, parceiros e irmãos.
Por que foi interrompida a sua parceria com o Egberto Gismonti, que rendeu tantas pérolas para a MPB?
GC: Porque o Egberto se dedicou mais à música instrumental, na qual ele é um dos grandes criadores da música do mundo. Mas fizemos umas cinco novas canções nos últimos anos e temos planos de fazer um CD com as nossas favoritas de 1972 até hoje.
Você é um dos poetas que se destacaram nos anos 70, no período em que se fazia a poesia então chamada de marginal. Curiosamente, foi um movimento que ganhou destaque durante a ditadura, quando praticamente todas as outras artes viviam cerceadas pela censura. A poesia marginal era alienada politicamente? Que fatores contribuíram para o sucesso do movimento naquela época?
GC: Nunca me considerei um poeta marginal, por diversos motivos. Primeiro, porque sempre tive editores sonhadores que publicaram meus livros. Mas a idéia da "poesia marginal", lançada se não me engano pela minha querida Heloísa Buarque de Holanda, foi como um sopro de vitalidade e juventude num momento de formalismo, em que a poesia - mesmo a supostamente vanguardista - andava de fraque e cartola.
O que acha da poesia erótica?
GC: Nunca fui de cometer poemas eróticos. Uma vez, em 1975, escrevi um poema ligeiramente erótico, no qual constava a palavra xoxota. Por coincidência, fui no mesmo dia almoçar na casa de meu grande amigo Bráulio Pedroso, onde conheci a poeta paulistana Hilda Hilst, grande amiga e ex-namorada do Bráulio. A Hilda leu o meu poema e sugeriu que eu cortasse a palavra xoxota. Anos mais tarde, a Hilda publicou um dos mais marcantes livros eróticos da poesia brasileira, o Caderno Rosa de Lori Lamb. Se eu pudesse reencontrá-la hoje, eu provavelmente lhe diria: "Hilda, eu quero a minha xoxota de volta."
Tivemos uma polêmica na comunidade quando você disse, no programa do Roberto D'Ávila, que pensou em rever a tradução do soneto 116 ao descobrir que Shakespeare o havia dedicado a um homem e não a uma mulher. A poesia é o poeta, mas a opção sexual e outras características pessoais de um autor têm influencia na tradução?
GC: Claro que têm. O soneto 18 (e não o 116), infelizmente, não é meu (adoraria que fosse), é do Shakespeare. Ao traduzi-lo, tenho o dever de reproduzir a visão de mundo do autor, inclusive suas preferências eróticas. O soneto 18, segundo a maior parte dos intérpretes, foi dedicado ao Conde de Southampton, patrono de Shakespeare. Que era, aliás, uma figura belíssima, dotada de uma beleza andrógina e capaz de agradar a gregos e baianos. Quando li o soneto pela primeira vez, eu não sabia disso e o traduzi como se fosse endereçado a uma mulher. Ficou assim:
"Te comparar com um dia de verão?
Tu és mais temperada e adorável.
Vento balança em maio a flor-botão
E o império do verão não é durável.
O sol às vezes brilha com rigor,
Ou sua tez dourada é mais escura.
Toda beleza enfim perde o esplendor,
Por acaso ou descaso da Natura;
Mas teu verão nunca se apagará,
Perdendo a posse da beleza tua,
Nem a morte irá por te ofuscar,
Se em versos imortais te perpetuas.
Enquanto alguém respire e veja e viva,
Viva este verso e te mantenha viva."
Se um dia eu for traduzir a série completa dos 154 sonetos, tenho que levar em conta que, muito provavelmente, todo o grupo foi dedicado a um muso, e não a uma musa.
Já ouvi você dizer que as obras originais são eternas, mas as traduções têm prazo de validade. Por quê?
GC:As traduções vão sendo refeitas conforme o espírito do tempo. Quando são esplêndidas, continuam mantendo o interesse, como se fossem objetos de antiquário. Mas cada época reinventa a sintaxe e as idéias do passado.
Outro assunto que gerou polêmica foi uma afirmação que você fez em um evento na PUC, há alguns meses. Parece que você defendeu a superioridade da poesia escrita sobre a oral. A qualidade de um poema independe do fato dele ter sido publicado ou não, isto é óbvio. De onde vem então essa supremacia da poesia escrita?
GC:A poesia começou oral. Com o passar dos séculos, a invenção da escrita forneceu à poesia uma complexidade com a qual ela não podia contar anteriormente. Todos os grandes poetas do nosso tempo são poetas da escrita: e.e. cummings, W.B. Yeats, Mallarmé, T.S. Eliot. A oralidade talvez permaneça como uma espécie de reserva ecológica na qual a poesia necessite mergulhar de vez em quando para não se tornar prisioneira dos vícios da escrita.
Quando começamos a pensar nessa conversa, você não participava no Orkut. Hoje temos a alegria de tê-lo presente na comunidade, talvez até motivado por esta entrevista. Gostaríamos que você permanecesse aqui pra sempre, para que todos possam conversar diretamente com você, sempre que possível. E, aproveitando, será que você teria por aí um poema novo ou inédito que pudesse nos mostrar em primeira mão?
GC:Só entrei no Orkut duas ou três vezes. Tenho simpatia pela idéia, mas acho que já temos instrumentos demais para nos comunicarmos uns com os outros. Pra quem quiser falar diretamente comigo, sugiro que visite o site www.geraldocarneiro.com Infelizmente, a vida é uma correria e não tenho tempo para ser um correspondente muito assíduo. Mas vai ser uma alegria receber vocês por lá.
Finalizando, queremos todos descobrir se afinal de contas você transpira pra escrever ou se é pura inspiração? Como vem toda essa maravilha que nos encanta? Qual é o segredo?
GC:Meus poemas nascem quase prontos. Às vezes, tento interferir, mas eles recusam quase todos os meus palpites. Talvez a poesia seja só uma expressão da potência da linguagem, e nós, poetas, meros cavalos de santo.