MVQ: Você dividiria a sua obra em fases? A partir do terceiro livro haveria uma unidade maior?
GC: Tenho a impressão de que o que eu escrevo começa pelo princípio, vai até o meio e termina no fim. Mas às vezes tenho a impressão de que é o contrário. James Joyce, que sabia das coisas, chamava o seu trabalho de work-in-progress. Se não me engano (e eu me engano muito), o que eu escrevo é uma desordem-em-progresso.
MVQ: Como você, que já utilizou formas da poesia concreta, vê hoje as chamadas vanguardas dos anos 60?
GC: As vanguardas dos anos 60 tiveram um papel saneador da sintaxe e dos desvarios beletristas. Depois, começaram a imitar a si mesmas, viraram clichês. Aliás, toda vanguarda, no dia seguinte, vira clichê. Tomara que venham muitas novas vanguardas. Tomara que elas não demorem a passar. (No dia em que eu virar clichê, por favor, me avise.)
MVQ: A intertextualidade (implícita e explícita) é a marca registrada da sua obra. Por que houve esta opção estética?
GC: Não é uma opção, é a minha maneira de olhar as coisas. Se eu fosse metido a moderninho, diria que é uma espécie de hipertexto. Meus orixás ficam sempre me rondando. Não saberia me expressar sem a companhia deles. No fundo, todo texto se escreve em diálogo com os anteriores. Não saberia fingir que esse diálogo não existe. Talvez seja necessária essa ficção, essa psicose em que o artista se imagina como demiurgo. Ou talvez, na minha patologia, o diálogo com a série histórica possa ser um jeito de domar parte das volúpias do ego doidão da poesia lírica.
MVQ: Você disse em versos que seu texto é minifúndio e o do João Cabral, latifúndio. Como explica a comparação?
GC: A comparação me parece óbvia. Não se pode pensar a poesia de língua portuguesa sem João Cabral. João Cabral é um latifundiário simbólico. Seu latifúndio vai desde as margens do Capibaribe até o Tejo. Eu tenho, no máximo, um bangalô em Vigário Geral.
MVQ: Sua obra é, ao fim e ao cabo, uma "desinvenção"?
GC: Se não me engano, toda poesia é uma desinvenção da poesia anterior. Talvez a poesia comece por um parricídio. Se você não matar seu pai, Cronos, não inventa sua própria mitologia. Talvez a originalidade esteja no esforço de apagar os sinais do crime. Pode ser que eu tenha um trauma infantil e não admita cometer esse pecado original. Aliás, padeci experiências hilárias – e mais ou menos traumáticas - na minha infância com três grandes poetas do século XX. Qualquer dia volto a falar sobre isso.
MVQ: Com que poetas anteriores e contemporâneos você encontra afinidades? Quais seus antecedentes e descendentes?
GC: Todos. Sobretudo em seus momentos mais ridículos. Devo citar nomes? Melhor poupar os meus contemporâneos. Augusto dos Anjos. Luís de Camões. Fernando Pessoa. Murilo Mendes. Vinicius de Moraes. Manuel Bandeira. João Cabral de Melo Neto. Paulo Mendes Campos. Quando eu crescer, quero ficar parecido com Jorge de Lima e Carlos Drummond de Andrade. Tenho feito esforços nesse sentido.
MVQ: Um verso seu diz que foi feito "pelo mero prazer das consonâncias". Este é o seu recurso poético preferido? Ou melhor, quais são os recursos que você mais usa conscientemente na elaboração de um poema?
GC: Gosto da música na poesia. Pra mim, é uma divindade fundamental. Mas de vez em quando ela começa a ficar autocrática e sou obrigado a botar ela pra fora da minha república. Nesses momentos, quero me contaminar com palavras bárbaras, estrangeiras ao repertório da poesia. Fiz isso em Manu Çaruê. Quero me tornar selvagem. O mau selvagem. Depois acabo me rendendo de novo à minha arquitetura de quimeras – imagem essa que me foi revelada durante um exercício de possessão, quando baixou em mim o espírito de Augusto dos Anjos. Só que a antena da minha TV era made in Paraguai.
MVQ: Nelson Ascher, em um prefácio, lança mão dos termos conceptismo e cultismo para falar de sua poesia. Como você viu esta adequação de noções barrocas para a análise de um texto do fim do século xx?
GC: Ele tem toda a razão. Costumo assumir diversas máscaras, a máscara do poeta barroco, a do poeta romântico etc. Esse poema mencionado pelo Nelson é um jogo de associações só aparentemente regido pela música. Mas esse jogo da superfície acaba suscitando uma revelação existencial. O poema não pretende endossar o artifício, mas denunciá-lo. Claro que isso foi a intenção. Se deu certo, quem sabe é o leitor.
MVQ: Por que essa obsessão com Bilac, inimigo público número um para os modernistas de 22? Sua anti-chave de ouro é uma resposta aos parnasianos?
GC: Olavo Bilac é um dos grandes paradoxos da poesia brasileira. Capaz de escrever poemas extraordinários. E ao mesmo tempo capaz de ser um debilóide da pátria, fomentar os piores exemplos de beletrismo e sugerir ao prefeito Pereira Passos que importasse pardais lá de Paris! Não vou enumerar os motivos da minha implicância, ou teria que passar dois anos escrevendo a respeito. Em suma, Bilac é meu ícone, minha negação e meu Judas em sábado de Aleluia.
MVQ: Sua obra parece viver a ambigüidade de ser uma permanente declaração de amor à literatura e ser a paródia dessacralizadora desta mesma literatura, como se ela pudesse ficar na terceira margem. Afinal, existe tal terceira margem, para além da crítica?
GC: É verdade, você descobriu a minha parapsicologia da composição. Por um lado, sou um juvenil fascinado pelos grandes ícones da literatura. Por outro, sou entediado como Mallarmé ou um veterano de Oxford, com um tédio que não ( Ox)ford nem sai de cima. Vivo nessa dualidade, em busca do outro. Pior é que sempre fui assim, desde o princípio. Talvez não seja só a ambigüidade. Vai ver que eu tenho o dom da umbigüidade.
MVQ: Como você situaria a sua poesia em nossa época? Com que tendências mantém diálogo? E de quais se afasta?
GC: Nunca tive a sensação de pertencer ao meu tempo. Quando era jovem, nos anos 70, diziam que nós, poetas da minha geração, fazíamos "poesia marginal". Sempre me rebelei contra esse rótulo, e contra quase todos os outros. Não sei qual é o meu tempo. Tomara que seja agora. Todos nós, poetas, somos construtores da eternidade. A poesia se faz com a soma, mesmo que anônima, de todas essas contribuições. Não importa que a posteridade se deleite conosco ou nos delete. Por via das dúvidas, tenho vários projetos de epitáfio, entre os quais o seguinte:
sonhou sonhos de poder & glória
pavoneou-se: espalhou jactâncias
pensou que era um profeta angelicaos
o penacho como um sol de solidão
no céu dos deuses marginais;
foi morar num palácio no Parnaso
entre líricos e burlescos
num penthouse pra lá de sua posses:
não passava de um novo-rilke.
MVQ: Sua obra é uma das mais críticas da nossa história literária. Você nunca pensou em exercer a crítica ou o ensaio fora do texto literário?
GC: Nunca tinha pensado a respeito disso. Vou começar a prestar atenção em mim.
MVQ: Para usar suas palavras, há uma literatura que se empavona e outra que se desempluma?
GC: Isso mesmo. De maneira geral, pertenço ao segundo time. Quem nasce pra Unidos do Viradouro nunca chega a Estação Primeira de Mangueira.
MVQ: O que é ser um "traficante das palavras"?
GC: É exatamente isso. Tiro as palavras da Divina Comédia e levo pra dançar no Clube dos Democráticos, e vice-versa.
MVQ: Como é o seu processo de criação?
GC: Caótico.
MVQ: Se fosse crítico, que características destacaria em seus poemas?
GC: Primeiro, a alegria. A poesia não precisa ser sempre um baixo astral. Pode ser uma celebração. Em seguida, a dor. Ninguém pode celebrar a alegria, se não tiver a percepção da finitude e da dor. Sou cruza de Blackout com Nélson Cavaquinho e Guilherme de Brito.
MVQ: Qual é a sua visão da poesia contemporânea?
GC: A melhor possível. Hoje não existe uma Poética Única que cultive a pretensão de suprimir as outras. Podemos ser múltiplos.
MVQ: O seu trabalho com teatro e música influenciam a sua poesia?
GC: Com certeza. O teatro obriga o escritor a encarnar o personagem. A letra de música obriga você a desentranhar da melodia a voz e a circunstância da canção. Nos dois casos, você não pode impor o seu ego à canção ou ao personagem. Você acaba funcionando como cavalo-de-santo. Esse descentramento traz outras vozes à poesia.
MVQ: Se Cabral era um anti-lírico, você seria um deslírico?
GC: É possível. O lirismo se ancora quase sempre numa hipertrofia do ego. Faço o possível pra caminhar no fio da navalha, entre a necessidade do lirismo e a necessidade de cortar as asinhas dele. Talvez eu seja um poeta épico perdido num tempo em que não há mais a percepção poética da epopéia (porque epopéia continua havendo: é só você abrir o jornal.) Ou quem sabe um rapsodo que arrisca um rap. Ou ainda, depois de tantos descentramentos e projetos de epitáfio, eu não passe de um Epitáfio em Pessoa.